Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Aviso: Este post contem linguagem forte.

 

Hoje fui vítima de preconceito.

Hoje fui vítima de terror psicológico.

Fui humilhada, ofendida (com direito a todos os nomes mais ordinários que possam imaginar) e alvo de ameaças contra a minha integridade física dentro de um autocarro cheio de gente que nada fez.

Fui vítima de abuso de um homem, o condutor do autocarro, que me gritou, me ofendeu e me ameaçou.

Enquanto tudo isto se dava, todos os outros passageiros assistiam e compactuavam com o condutor porque estavam com pressa de chegar a casa e eu estar a reclamar, não lhes dava jeito porque estava a atrasá-los.

É incrível ver como as pessoas acatam estas situações, as menorizam e as diminuem porque estão com pressa. Não me chocava nada que a desculpa fosse que estavam com sono ou com vontade de fazer xixi. A desculpa é o que menos importa.

Só que a pressa não me fez ficar quieta e muito menos me calou.

Tentei, com grande esforço, responder à letra aos ataques que me estavam a ser feitos pelo condutor. Impus a minha voz e disse-lhe, enquanto ele me gritava junto ao rosto indecências, que ele não tinha o direito de me gritar, de me ofender e de me ameaçar.

Se ele pensava que me metia medo ou me calava… não podia estar mais enganado.

Falei, falei sim, e disse-lhe que devia ter vergonha de fazer o que estava a fazer. Que deveria ter ainda mais vergonha de estar a gritar contra uma MULHER e sobretudo por me tentar assustar e dominar pelo medo.

Lixou-se novamente!

Não admito a nenhum homem que me grite, que me cale, que me chame nomes ou me tente dominar de que forma for.

Numa altura em que as MULHERES lutam pela igualdade do género, numa altura em que a violência contra as mulheres nunca esteve tão revelada, é inaceitável e vergonhoso este tipo de comportamentos.

O mais chocante ainda foi perceber que as outras mulheres presentes (entre os 20 e os 80 anos) aceitaram o que me estava a acontecer e defenderam fervorosamente o motorista.

Uma mulher, que não tinha menos de uns bons 80 anos, que volta e meia vejo no autocarro, desatou a gritar-me que EU era mal educada. Que EU tinha provocado o motorista. Que era bem feita o que ele me dizia porque ela tinha para onde ir e estava atrasada. Eu, vitima, era a culpada.

Isto leva-me a pensar em tudo o que os homens nos fazem e que é desculpado como sendo uma culpa feminina.

“A outra foi violada pois claro. Estava quase nua, o que é que ela estava à espera?”

“Tem a mania que é boa e depois faz-se de pura quando os gajos vão atrás dela!”

“Esta estava mesmo a pedi-las”

“Diz que NÃO mas eu vejo que é sim”

“Ela só responde e faz tudo ao contrário do que eu digo para me atiçar e fazer-se de difícil”

POIS VÃO À MERDA!!!!!!!!!!!!!!!!

Ninguém pede para ser mal tratada, ninguém agradece que lhe chamem nomes, ninguém implora por um estalo ou um murro na cara. Ninguém acorda de manhã a pedir a Deus que a violem mais lá para o fim do dia, que antes disso não dá jeito nenhum.

Acredito que o pior pesadelo de uma MULHER é ser vendida, usada, violada e/ou espancada.

Estamos em 2017 e estas coisas dão-se todos os dias.

Todos os dias uma MULHER é ofendida, abusada, ameaçada, espancada, vendida, drogada.

Todos os dias as MULHERES quase que têm que pedir desculpas por serem independentes, por vestirem o que querem, por foderem quem querem, por trabalharem e exigirem mais da vida. Por terem sonhos. Por terem vontades e ambições.

Conseguem imaginar quantas vezes por dia uma MULHER é alvo de assédio? Eu também não.

Não consigo porque, além daquelas que eu ouço, vejo e sinto não estou a contabilizar todas as outras que não ouço e não vejo mas que me são dirigidas.

Quando é que vão entender que nasceram de uma MULHER?

Que as mamas que querem “apalpar e chupar” são iguais àquelas que os alimentaram quando eram bebés?

Quando vão entender que as irmãs e as mães deles também têm um rabo como todos os outros que eles querem “comer”?

Será que eles já pararam para pensar que a “cona que querem foder” é igual à da mãe deles que os pariu?

Os corpos das MULHERES só são diferentes porque uns são maiores, mais altos, mais magros ou mais gordos, ou mais baixos ou mais pequenos, porque de resto todas as MULHERES partilham da mesma anatomia.

Todas temos o mesmo!!!! Até as “sagradas” mamãs!!!!

Mas o que acho insuportável e chocante mesmo, é mulheres que se viram contra MULHERES e incentivam e metem água na fervura. Mulheres que acatam o que está a acontecer com uma normalidade estúpida e assustadora.

Apenas uma me defendeu no autocarro. UMA em pelo menos 30 que lá estavam. Essa única mulher na casa dos “30” de alguma forma não tolerou o que estava a acontecer. Podia ter feito mais, é verdade, mas se não o fez é porque teve os seus motivos e provavelmente não queria passar pelo que eu passei nos 20 minutos que estive dentro daquele autocarro.

Estou revoltada. Nunca antes tinha sentido tamanha discriminação e falta de respeito.

Aposto o meu fígado em como o condutor só se armou em duro porque eu estava sozinha e porque eu sou MULHER.

Isto só prova que estes cérebros estão cheios de merda!!!

Não precisamos de um homem para nos defender!

Costumo dizer que enquanto tiver mãos, unhas, dentes e pés eu safo-me. E acreditem que sinto mesmo o que acabei de escrever.

Não sinto que tenha que depender de um homem para me sentir segura. Não sinto isso nem quero.

Sou MULHER mas não sou fraca! Não compactuo com mentes pequenas e línguas venenosas.

Não compactuo nem aceito punhos fechados ou aproximações ao meu rosto. Não aceito que me gabem o corpo ou o ofendam.

Não aceito que este mundo ainda acredite que as MULHERES andam cá para servir os homens, para serem submissas, para criar filhos, para fazerem as vontades aos meninos.

Eu tenho uma VOZ e ela grita bem alto dentro de mim e, quando é preciso, sempre que for preciso, ela gritará bem alto para todos ouvirem.

Não admito a invasão do meu espaço, do meu corpo, da minha mente. Não admito este terrorismo psicológico. Não o permito, não o aceito nem me calo perante ele.

Não me vergo!

E tu não permitas que te façam sentir que és menos do que és. Não dês espaço para que te ofendam o corpo.

Não te finjas de surda quando te chamam nomes. Não aceites nada menos do que aquilo que mereces: RESPEITO!

Hoje estava eu naquele autocarro. Hoje foi comigo.

Quantas foram antes de mim e quantas o serão amanhã e depois e depois e depois?

Se cada uma de nós não se calar, não se deixar intimidar… isto um dia vai lá! Vai ser uma luta difícil mas juntas conseguiremos!

E tem de ser porque não consigo suportar a ideia de que todos os dias, em todo o mundo, há mulheres a serem vitimas de alguma forma de violência.

Cansei e enjoei de ler noticias de MULHERES que morrem todos os dias, das formas mais macabras, às mãos dos homens, por conta do que defendem e acreditam.

Isto para muitos não é nada e não passam de “chiliques” meus, que eu tenho a mania que sou boa, etc etc etc, mas isto do autocarro já é muito. Foi demais!

Digam NÃO quando quiserem dizer NÃO. Imponham a vossa vontade.

NÃO se curvem perante a vontade de homens ou de mulheres que não vos respeitem.

Depende de nós mesmas travar estas merdas.

Hoje eu fiz tudo o que podia e não podia estar mais orgulhosa de mim.

Defendi-me. De alguma forma falei por todas as MULHERES, mesmo que à minha maneira. Mesmo que apenas dentro de um autocarro.

 

PORQUE NÓS NÃO SOMOS O SEXO FRACO.

…SÓ AS FORTES AGUENTAM ESTAS MERDAS!

 

 

9 Outubro, 2017

 

[vc_column][vc_facebook][/vc_column]

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com