Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

As Entrevistas

 

Isto de se estar desempregado não é para mim.

Não é para mim como não devia ser para ninguém, mas infelizmente há até quem goste.

Como calculam, desde que saí do inferno onde estive enfiada seis meses, que tenho concorrido a umas mil vagas por dia e, volta e meia, lá vou eu a uma entrevista.

Uma entrevista é uma coisa que por si só nos deixa com alguma ansiedade. O que vestir? Não esquecer que a maquilhagem tem que ser casual. Pesquisar o mais possivel sobre a empresa, quando necessário levar documentos e garantir que nada falha, fazer de tudo para chegar a horas (de preferência uns dez minutos adiantada para o charme!).

Vai daí, chega a hora.

Ora bem, se lá estamos é porque querem saber mais sobre nós, querem ouvir-nos falar do nosso percurso, das nossas experiências, etc. Certo? Na na ni na não. Nem sempre.

Vou-vos contar como é uma entrevista para uma vaga “desesperada” para secretária / recepcionista e como é uma vaga para a minha área de comunicação.

Comecemos pela mais rápida mas a mais dolorosa. A vaga na minha área.

Chego. Apresento-me. Aguardo numa sala uns bons 20 a 30 minutos em modo transparente e depois lá me chamam para uma outra sala.

Entro, espero mais 10 a 15 minutos, que esta gente de comunicação é muito ocupada, aperto a mão do entrevistador enquanto digo o meu nome e sento-me.

“Ana, chamá-mo-la aqui para a conhecermos melhor. O seu CV deixou-nos curiosos.

O que pretende exatamente?”

Confusa, porque arre porra, quero trabalhar, lá respondo. Desatam a fazer perguntas relativamente ao curriculum e às minhas experiências e a coisa parece estar a correr bem. Até que…

“Ana, sabe que já está com 35 anos e tem trabalhado sobretudo em outras áreas. O que a faz crer que a vamos aceitar?”

Esperança é a resposta que grito para mim mesma mas para quem está à minha frente respondo o que eles querem ouvir e pelo meio tento fazê-los esquecer a minha idade.

“Ana, foi um prazer (really??prazer é outra coisa meus caros!) e nós damos uma resposta até ao final da semana por mail”.

The end. Porque o mail diz que não fiquei.

 

Ora, agora uma entrevista para a área de secretária / recepcionista:

Chego, sempre um bocadinho mais cedo, como já vos contei, apresento-me e fico à espera.

Passado um bocado duas pessoas pedem-me que as siga até uma sala.

Vasculham o CV com perguntas sobre o que já fiz, onde gostei mais de trabalhar, onde gostei menos e porquê, preocupam-se em saber quanto eu quero ganhar, quando posso começar e depois fazem a questão que eles acham ser a mais importante: “não sendo da área, o que a motiva a querer trabalhar connosco?”

DINHEIRO, senhores, DINHEIROOOOO!!! Mas ao invés de lhes gritar isso, respiro fundo, e dou uma resposta já mais que estudada. Depois é mais do mesmo: “Muito obrigada por ter vindo, nós ligamos”.

A coisa deve ter demorar uns 15 minutos no total.

Ahhhh já me esquecia da pergunta mais comum que fazem: “Ana, diga-nos uma frase que a defina”. Poético, não acham?

Ora muitas vezes quando me ligam a dizer que não fiquei é sempre por uma destas três possibilidades:

  • o salário não vai de encontro ao que a Ana pretende
  • A Ana tem qualificações a mais para este emprego
  • A Ana não sabe trabalhar com o programa “X”, apesar de saber trabalhar com todos os outros. Mas este é O programa.
  • Ana, procuramos alguém menos ambicioso e menos entusiasta. E mais novo.

Ok.

E a Ana só quer trabalhar.

Agora deixem-me dizer-vos como foi uma entrevista que tive há dois meses para trabalhar como empregada de limpeza de um café/pastelaria:

“Ana, chamá-mo-la aqui porque com o curriculum que nos enviou ficámos com muita vontade de a conhecer e  de perceber o que motiva alguém com Mestrado a querer trabalhar aqui”.

Fo#”-S#!!!!

E irem para um sítio onde o sol não brilha, hãn???
Acreditem, isto aconteceu mesmo e até hoje nunca tive uma resposta da parte deles.

Pois é, é assim a vida de uma gaja com a minha sorte ao trabalho, com 35 anos, pertito dos 36, casada, com contas para pagar e farta de estar em casa.

É o que há e é esperar por dias (e entrevistas) melhores!

 

28 Agosto, 2018

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