Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Aleppo

Acho que já vos disse que moro numa bolha. A minha bolha é o “sítio” para onde fujo quando as coisas começam a ficar negras.

Lá, nessa minha bolha, o mundo é perfeito: o sol brilha, praias lindas por todo o lado, está sempre tempo quente, os animais são bem tratados, não há problemas de dinheiro, não existem guerras nem fome, nem crianças a morrer…como neste momento há em Aleppo.

Numa das minhas (muitas) visitas ao Facebook fui confrontada com um vídeo de um homem, professor, pai de uma criança pequena, que se despedia do mundo e da vida pedindo que não nos esquecêssemos dele e do seu povo.

Este professor pedia, repito, que não nos esquecêssemos dele e do povo da Síria.

Relatou que o cenário é do mais horroroso possível, que está rodeado de pessoas mortas, e que muito provavelmente ele será o próximo.

O vídeo é chocante. Mas o que me chocou ainda mais, foi a forma como este homem falou.

Parecia conformado com o seu destino mas carregado de uma tristeza imensa. O seu olhar é de uma tristeza de morte.

Um pai, um filho, um irmão, um amigo, um professor. Ele é todos num só vídeo.

Um vídeo onde nos diz que não acredita que a ONU, ou seja lá quem for, os vai salvar. Um homem sem esperança. E sendo a esperança a última a morrer…ele já estava meio morto quando gravou aquele vídeo.

Será que ele ainda está vivo? Não paro de pensar nisto.

Não consigo imaginar o que se passaria dentro da cabeça daquele homem no momento da gravação.

Não consigo imaginar como é sentir tamanho medo, ansiedade ou até mesmo a serenidade ou resignação que ele sentia.

Não consigo.

Ler depois que há mulheres a matarem-se para não caírem nas mãos das bestas nojentas que as vão violar é horrível. Saber que elas mesmas têm essa noção e que estão em tamanho desespero que as leva a preferir a morte… Já não estarão elas mortas por dentro?

Porque uma mulher, qualquer mulher do mundo, tem como maior medo e pavor ser alvo de uma violação. Saberem que o fim que as espera é esse, é por si só uma óbvia condenação à morte.

Preferem morrer a deixar que os homens as violem e as façam sofrer ainda maiores horrores do que aqueles que já assistiram ou foram vítimas.

Crianças rodeadas de morte.

Crianças já sem reação quando vêem sangue a escorrer pela cara abaixo. Que já não reagem nem se chocam.

Crianças, da idade do meu sobrinho, mais velhas e mais novas que ele, a morrerem e a verem morte por todo o lado.

A morte é tudo o que elas conhecem e maior violência e horror que estes, não existe.

O último pedido daquele professor foi que não o esquecêssemos. A ele e ao seu povo.

Eu sei que não o vou esquecer. Mas e o mundo?

E tu?

Tu sabes de quem falo? Viste esse vídeo? Partilhaste-o ou fizeste só um gosto colocando um boneco triste e foste à tua vida e nunca mais pensaste nisso?

Não. Não estou a julgar ninguém. Quem sou eu… Apenas pretendo que se veja o que se está a passar e que se faça alguma coisa. E isso começa por nós mesmos.

Eu não aguento mais saber o que se passa e não fazer nada.

Estamos todos a assistir a isto, a permitir que este horror aconteça. Que continue.

Mas que posso eu fazer? Não digo que não posso fazer nada, mas não mentiria se o dissesse.

Mas na impossibilidade de matar os maus e salvar os bons como nos filmes, eu faço o que posso.

Hoje assinei uma petição da Amnistia Internacional a pedir que se acabe com estes bombardeamentos e que sejam retirados de Aleppo os civis.

Por favor, assina esta petição. Temos de exigir uma solução imediata para salvar estas pessoas.

Assina aqui tu também:

http://www.amnistia.pt/index.php/2-uncategorised/2569-peticao-dupla

No limite, isto é fazer alguma coisa. Isto é mostrar que eles não estão nem serão esquecidos.

Esta é a nossa única forma de tentar ajudar este povo.

Em Aleppo na Síria, já não há para onde fugir.

Em Aleppo na Síria, ainda lá estão muitos civis inocentes. Homens, mulheres e crianças que já não têm nada. Nem casa, nem comida, nem cama, nem água, nem roupa…nem esperança. Estão rodeados de nada. 

Pensam que todos vão ser esquecidos e de facto é o que irá acontecer se ninguém ajudar.

Podia ser aqui. Aleppo podia ser Lisboa. Podia ser eu ou tu.

 

Gostavas que te esquecessem?

 

Olhemos para os vídeos. Não viremos a cara, não fechemos os olhos. Vejamos mesmo o que se está a passar e por favor, não fiquemos indiferentes.

Porque podia ser comigo. Porque podia ser contigo. Porque podia ser aqui.

Juntos podemos fazer muito.

Eu costumo dizer que enquanto houver pelo menos uma pessoa boa no mundo…o mundo não está perdido. Há esperança.

Ajudem a que ninguém se esqueça. Façamos alguma coisa para salvar estas pessoas do inferno em que vivem.

E ao senhor professor do vídeo que vos falei (infelizmente não encontrei o vídeo para deixar aqui o Link) só lhe posso garantir, mesmo que ele nunca o saiba, que eu o ouvi. Que eu vi o vídeo dele.

 

Que lamento e não me vou esquecer.

 

 

4

 

 

18 Dezembro, 2016

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1 thought on “Aleppo

  1. Nem de propósito vi no domingo uma reportagem no Jornal da TVI … “Síria, à distância de um tiro”, e dei por mim várias vezes com lágrimas nos olhos.

    É uma realidade tão diferente daquela a que estamos habituados.

    Só consigo sentir tristeza.

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