Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

As memórias das nossas histórias

Dizem que não devemos olhar para trás.

Eu olho.

Eu olho para me lembrar de onde vim, como me transformei em quem sou hoje, em como cheguei ao lugar onde estou.

Eu permito que a minha costela portuguesa ceda à (tão nossa) saudade.

Sou aquela pessoa que vive de memórias. Sou aquela pessoa que associa um cheiro ou uma música a uma pessoa e assim fica até ao fim.

Vivo com o coração na boca. Não sei filtrar o que digo. Falo com os sentimentos à flor da pele. Digo tudo.

Das pessoas, gosto de guardar o que é bom de guardar, mas a maior parte das vezes não me lembro das gargalhadas nem das palhaçadas mas sim das discussões, dos momentos de lágrimas.

Não sei bem porque o faço mas é muito assim.

Ao longo destes bebés 34 anos, eu tenho uma história carregada de gente que entrou e saiu da minha vida, uns mais rápido que outros, mas certa que todos me marcaram.

Sou a favor de não chorar à frente de ninguém. Só choro ao pé de quem realmente confio porque sei que há muita gente que se alimenta das nossas lágrimas. Por isso raras vezes choro seja pelo que for.

Quando a minha avó morreu eu não quis nada de valor. Quis as fotografias, os copos, as panelas, os talheres, a toalha do Natal, os óculos dela. O resto não quis.

Quando uma pessoa que eu muito amava partiu, fiquei com uma peça de roupa dela e imensas fotografias.

Quando a minha vizinha Judite morreu, fiquei com o presépio dela.

Quando um grande amigo saiu da minha vida, guardei as cartas que trocávamos em gaiatos. Guardei as fotos. Guardei as recordações. Sei que música me faz lembrar dele. Sei o perfume que ele usava.

Lembro-me de todos os meus ex-namorados. Os nomes “fofinhos” que nos chamávamos, o perfume que eles usavam, as prendas que lhes ofereci. Guardo as memórias que tenho deles. Tanto as boas como as más.

Esses ex-qualquer coisa, fazem parte da minha história mas raras vezes me lembro deles porque a minha história, hoje é feliz.

Graças a eles eu entendi o que não queria num homem, o que eu precisava num homem, o que eu amo e odeio num homem.

Hoje tenho comigo o melhor homem de todos. O homem que amo e que não quero perder.

Andamos de mãos dadas lado a lado. Nenhum vai à frente do outro. Nenhum de nós dá mais que o outro. É AMOR. O meu amor.

Lembro-me muito da minha história.

Lembro-me muito de quem ainda hoje me deve dinheiro, um telefonema ou uma mensagem.

Lembro-me muito bem dos que me roubaram. Dos que me devem mais de mil euros e enganou meio mundo com o seu ar de  parvo.

Lembro-me das minhas palhaçadas com as minhas colegas de faculdade. Dos amigos desse tempo e que o tempo se encarregou de afastar. O tempo e a vida.

Lembro-me do primeiro casamento de uma amiga ao qual fui. Foi há mais de uma década e foi um dia emocionante. Era o primeiro casamento ao qual eu ia sem ser alguém amigo dos meus pais.

Lembro-me do dia da minha formatura. Lembro-me do dia da queima do cheque. Lembro-me do primeiro dia de aulas na faculdade e das vezes que quis desistir.

Lembro-me do momento em que me apercebi que não fui feita para desistir.

Lembro-me do dia que chorei de raiva por não responder a ofensas que vinham de quem mais gostava.

Lembro-me de gente má, invejosa, de gente de baixo nível que insistiu em querer ficar na minha história e que eu tive de expulsar.

Lembro-me das coisas que não disse, que não fiz, das oportunidades que tive e perdi só porque sim.

Lembro-me dos fretes que fiz para não me chatear com alguém.

Estas pessoas serão sempre o inicio, o meio mas nunca o fim da minha história.

A minha história vai continuar depois desta gente. A minha vida continua sempre depois dos desgostos, do choro, do drama, da inveja, da maldade, dos roubos, da mentira.

Estas histórias tornaram-me muito no que sou hoje mas não me definem.

O tempo passa e eu continuo, segura, em frente. O caminho é para a frente. Pelo menos, eu não conheço mais nenhum caminho.

A minha história é seguir em frente. Sempre. Custe o que custar. Doa o que doer.

Posso cair mas eu nunca fico muito tempo no chão.

Não me permito. Não tenho pena de mim.

Levanto-me, faço uma piada e sigo em frente. E aprendo. Aprendo mais uma lição que fica na minha história.

Acho que é importante todos olharmos para trás e pensarmos: Ok, fiz imensa merda, estive rodeada de gente má, mas também me rodeei de gente boa. O meu percurso não é só coisas más. O que seria se assim fosse. Mas o normal é focarmo-nos mais nas partes menos boas.

Tenho hoje à minha volta gente que me ama. Gente que vale muito a pena.

Sinto que sou boa pessoa mas que podia ser melhor. Ainda assim, sinto-me amada pelos que estão comigo.

Posso ser melhor. lutarei para ser melhor. e lá está, o tempo ajuda em tudo e eu acho importante olhar para o meu percurso.

Sinto saudades de pessoas que fizeram parte da minha vida. Sinto saudades de coisas que vivi que não voltam mais.

Mas se não voltam é porque tem que ser assim. Quem vive do passado é museu, dizem.

E eu estou mais para rádio ou televisão!

Guardo comigo as fotografias, guardo comigo as músicas e os cheiros e sigo em frente.

Porque eu só sei andar em frente mesmo que esteja em mim, muito presente, o meu passado.

Penso que não é mau não me esquecer do que um dia já foi. Do que um dia já fui.

Se for… não quero saber.

Apenas gostava de me esquecer de coisas que me arrependo. Mas é a minha história.

Agora a minha história tem que seguir em frente. Talvez isto me ajude a caminhar mais segura.

Tenho em mim o fim e o inicio do que já foi. Mas sou o futuro.

Tenho ganas de viver tudo o que tenho que viver.

Sei que não agradeci a ninguém o que foram para mim. Se calhar é melhor assim. Acredito que é mesmo para ser assim.

Também não agradeço a quem me fez chorar como não agradeço a quem me fez mal. Não há qualquer motivo para agradecer seja o que for.

O vento que vos leve. A consciência que vos ajude a perceber o que fomos.

Eu não quero o inicio nem o principio da minha história.

Eu anseio pelas memórias que vou fazer, pelas experiências que vou ter, pela vida que vou viver.

Sei que há muito mais aí à frente para mim.

Não sou a minha história. Sou o meu futuro.

 

7 Janeiro, 2017

[vc_column][vc_facebook][/vc_column]

[sociallocker] https://www.facebook.com/liparimacompipa23/ [/sociallocker]

2 thoughts on “As memórias das nossas histórias

  1. Concordo contigo. Devemos sempre olhar para trás. É com os erros do passado que aprendemos.

    Ainda assim, uma coisa totalmente diferente é “viver do passado”. Isso sim, acho que não devemos viver do passado. Porque se o fizermos não nos estamos a dar a hipótese de avançar =)

    Gosto cada vez mais de ler o que escreves.

  2. E pronto, mais uma vez me deixaste com a lagrimita no canto do olho.

    Já temos, mas um dia teremos ainda mais orgulho em ti porque tu não desistes de lutar pelos teus sonhos e vais conseguir!! Tenho a certeza!! E nós vamos estar aqui para ti!!! E, com orgulho vou dizer!! É minha amiga…. conheço-a praticamente desde que sou gente!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

WP2Social Auto Publish Powered By : XYZScripts.com