Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

DAR ATÉ DOER.

Não há luz no fundo do túnel, não há aquela janela que todos dizem que surge logo depois de fechada uma porta.
É como estar parada num semáforo e o “gajo” nunca mudar de vermelho para verde.
E assim sendo…o que se faz?

“DAR ATÉ DOER…”

 

Tudo começa com uma troca de olhares. Tudo começa de forma inocente. Tal como vemos nos filmes.

Rapariga conhece rapaz. Nasce o interesse. Trocam-se números de telefone. Trocam-se mensagens. Os telefonemas passam a durar horas em vez de alguns minutos.

Um dia resolvem encontrar-se para tomar um café. Enquanto conversam ela “tira-lhe as medidas”. Ele faz o mesmo.

Riem-se. Ele toca-lhe na mão. Ela morde o lábio enquanto mexe no cabelo.

Ele paga a conta e marcam novo encontro. Um jantar.

Sábado, ele chega pontualmente ao restaurante. Ela atrasa-se dez minutos. Tem que ser, afinal faz parte.

Jantam. Riem-se, descobrem cada vez mais gostos em comum. Ele toca-lhe nas mãos. Desta vez faz-lhe uma festa e entrelaça os seus dedos com os dela.

Ela sorri e estremece por dentro. Baixa os olhos porque não quer que ele leia no seu olhar que ela quer mais.

Ele leva-a a casa. Ela não o convida para subir mas ele rouba-lhe um beijo e ela nem se faz de difícil.

Desse essa hora até ao momento em que começam a namorar passam-se poucos dias.

Dois meses passam, o amor dela por ele cresce e ele sente o mesmo.

Um dia discutem. Ele sente ciúmes quando ela cumprimenta um amigo na rua.

A partir desse dia ele insiste para morarem juntos. Quer estar sempre com ela e assim viver todas as horas e todos os minutos do dia com ela.

Diz que a ama. Que não consegue viver sem ela. Que ela é dele. Toda dele e só dele. Ela gosta do que ouve e cede.

Depois de duas semanas à procura da casa ideal, no bairro que ele escolheu, eles finalmente encontram a casa que ele tanto queria e decidem avançar.

Passadas duas semanas estão a morar oficialmente juntos.

A melhor amiga dela aconselhou-a a esperar mais um pouco, para ela não se apressar, para o conhecer melhor.

Ela agradece a preocupação mas avança.

Moram juntos há um mês. Namoram há quase seis.

Ela conhece todos os amigos dela. Ele fez-lhe o favor de conhecer apenas as suas amigas mais chegadas.

O relacionamento próximo com os pais dela esmorece. Ela foi-se afastando e rejeitando convites para almoços de família aos domingos porque ele prefere almoçar só com ela.

Um dia ele mexe no telemóvel dela. Ela percebe e pergunta-lhe porque o fez. Ele responde em gritos “Porque és minha e eu quero saber com quem falas”. Ela responde que não o reconhece, que ele não é assim e que não tem motivos para desconfiar dela. Ele chama-a de puta. Ela diz que não lhe admite que ele lhe fale assim. Ele ofende-a ainda mais. Só pára quando agarra no seu casaco e sai para arejar a cabeça.

Pela primeira vez ela não gosta dele. Não gostou do que ele lhe chamou. Não gostou dele lhe ter mexido no telemóvel.

Ela olha em volta e observa as fotografias dos dois que estão espalhadas pela casa e sente saudades dos tempos em que se sentia livre. Chora com medo que ele não volte. Afinal já não vê a sua vida sem ele.

Ele volta. As semanas passam-se.

As amigas reclamam a presença dela. Ela falta a aniversários, cancela jantares e arranja sempre desculpas para não sair com elas. Afinal, ele não as conhece bem…e não sabe o que ela faz quando saem juntas.

Um dia lá a convencem. Ela vai. Veste o seu vestido preferido, calça os seus sapatos de salto alto, maquilha-se e vai.

Durante a noite vai colocando fotos no Facebook.

A noite termina e ela regressa toda animada a casa.

Quando entra procura-o para lhe dar um beijo. Ele pergunta-lhe onde andou.

Ela responde. Ele pergunta-lhe porque se vestiu à puta. Ela responde que não o é e que não lhe admite que ele a chame tal nome. Ele grita. Ela grita.

Ele mostra-lhe as fotos que ela publicou. Quer respostas. Diz que aquilo não é ela.

Ela grita, ele grita. Ele dá-lhe um estalo enquanto lhe grita nomes.

Ela fica incrédula. Reage. Responde ao estalo com outro estalo.

Ele não admite e empurra-a. Bate-lhe. Com força. Puxa-lhe os cabelos. Pontapeia-a.

Chama-lhe os piores nomes que se pode chamar a uma mulher.

Ela grita, ela chora.

Ele diz-lhe “és minha e eu vou-to provar”.

Ele rasga-lhe a alma enquanto lhe controla o corpo ao som dos seus “Nãos!

Ele rouba-lhe a inocência ao mesmo tempo que lhe usa o corpo.

Enquanto abusa dela grita “és uma puta. És minha e de mais ninguém, estás a perceber?”.

Ela chora quando ele sai de cima dela. Ele dá-lhe um último aviso em forma de pontapé nas pernas. Ela é propriedade dele e que ela nunca se esqueça disso.

Ele vai tomar banho. Não quer ter o cheiro de uma puta em si.

Ela vai depois. Não quer o cheiro dele nela.

Os dias passam-se. Os meses passam-se. Ela não conta a ninguém.

A dor virou rotina. O esconder marcas também. Já sabe chorar sem lágrimas. Aprendeu a gritar sem voz.

Os pontapés, e todo o tipo de agressões, ficaram cada vez mais intensos.

Ele agora já não a ameaça só a ela. Ameaça todos os dela. Instiga-lhe e alimenta-lhe o medo.

Ela é dele. Ponto.

Ela vai acreditando que é este o seu destino, pior, acredita que nunca irá escapar dele. Que merece o que está a acontecer.

O choro vira um hábito tão normal quanto lavar os dentes.

Um dia ela cansa-se e tenta terminar com tudo, mas falha.

A melhor amiga desconfia e confronta-a. Ela conta tudo e assim ela vai acompanhando tudo e um dia, certa que é a melhor decisão, a amiga conta tudo aos familiares dela.

Todos a querem ajudar. Ela não deixa. Ela tem medo. Porque ela é dele e ele pode matar os dela.

Só ela sabe o quão perigoso ele é.

Um dia descobre que está grávida. É hora de fugir deste pesadelo. O bebé que aí vem não merece um pai destes, uma casa destas, um lar assim.

Ganha forças e foge.

Pelo caminho ela chora de alegria pois corre rumo à liberdade. Está cheia de adrenalina. Enquanto corre sente o vento na cara e pensa que vai conseguir vencer. Livrar-se dele e recomeçar.

Ele descobre, segue-a. Apanha-a e sem remorsos espanca-a como nunca a tinha espancado até aquele dia.

Ela sente o coração na boca a cada respiração. Ela implora a Deus que a salve e que lhe poupe o bebé. Ele já não lhe viola só o corpo. Viola-lhe a alma.

No final ele toma um banho e depois sai. Desta vez tranca a porta.

Ela não desiste.

Liga para a melhor amiga e esta vai a correr em seu socorro. Desta vez vai acompanhada. A porta é arrombada e ela levada para o hospital.

Perdeu o bebé e com ele a esperança. Sente que perdeu tudo.

Apresenta queixa. Ele é apanhado no bar para onde foi depois de a ter agredido pela enésima vez.

A polícia prende-o por 48h e depois solta-o. Ela desespera.

Ela foge. Ele procura-a. Ele acha-a mas não faz nada desta vez.

Passam-se quatro meses e ele encontra-a, afinal nunca a perdeu de vista.

Ela vê-o e sente que não se consegue mexer. Ele tira a mão do bolso.

Ela sabe o que vai acontecer. Respira fundo, fecha os olhos e reza baixinho.

Ele atira nela. Ela cai no chão. Ela está morta.

Não muito depois, é apanhado.

Ele chora porque perdeu o que era dele, tal como uma criança mimada chora quando perde o seu brinquedo preferido.

É preso mas com uma pena leve de mais para o mal que fez.

Mesmo depois de morta ninguém a ajudou, ninguém a vingou. Ele ganhou.

Um dia ele vai sair e tornar a fazer o mesmo.

 

A morte dela não significou nada. Ela é só mais uma nas estatísticas. Ela é só mais um número. Apenas mais uma capa de jornal. Apenas mais uma noticia no telejornal.

Esta não é uma história verdadeira mas pode muito bem ser a realidade de alguém.

 

Ontem, assinalou-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres.

“Até à data 22 mulheres perderam a vida por maus-tratos em Portugal. Mortes evitáveis se todas e todos unirmos esforços – sociedade civil, decisores políticos, comunidade – em agir, alertar, ajudar alguém que esteja em perigo. À mínima dúvida, tentem perceber o que se passa com a vossa vizinha, amiga, colega de trabalho, etc. Pode ser uma questão de vida e morte.
Nenhuma menina ou mulher deve ser ridicularizada, controlada, agredida com a justificação de que é por amor. Não se faz ISSO por amor e por amor não se pode viver ISSO! Pede ajuda! Peçam ajuda!”
(Catarina Furtado)

Não se calem!

Tenham voz!

Basta.

Hoje gritamos para ajudar alguém, porque amanhã podemos ser nós.

 

26 Novembro, 2016

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6 thoughts on “DAR ATÉ DOER.

  1. Excelente texto.
    Transmite muito a realidade de alguns lares.
    É pena que a justiça pouco ou nada façam.
    Vivemos num país de machismo e racismo onde se trata as pessoas como objectos principalmente as mulheres.
    Isto tem que terminar um dia.

    Basta.

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