Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Eis o que torna o teu amor mais forte: amar quem está tão próximo da morte

Dizem que o tempo cura tudo.

Não acredito.

Há dores que doem independentemente do tempo que passe. Há dores que não passam mesmo quando o tempo não pára.

Há saudades que o tempo não consegue disfarçar.

Vejo saudades nos olhos dos que mais amo. Consigo ver nesses olhos a saudade daqueles que muito amavam e já partiram.

Olho para eles e vejo como lidam com a falta de alguém que amam.

Faz hoje 5 anos que o meu pai perdeu a mãe dele.

O olhar dele é igual mas todos os anos neste dia, apesar de nada mudar, tudo nele muda.

Neste dia, a dor que tanto lhe dói e que ele tanto disfarça ao longo do ano, é visível. Indisfarçável.

A minha mãe carrega nela o mesmo olhar em relação à dor da perda do pai.

Olhares tristes e carregados de saudades.

Cinco anos passaram desde que a minha avó nos deixou. Perdeu a batalha contra o Alzheimer em 2011.

O Alzheimer roubou uma mãe, uma sogra, uma avó.

Chegou devagar, mas dando claros sinais que não faltava muito para a levar de nós.

Recordo nela um olhar vazio mas ainda assim tão cheio. Sobretudo perdido.

Vivi 29 anos com a minha avó. A melhor avó do mundo que me chamava de princesa, que esteve presente em todas as alturas importantes ou nas mais dolorosas da minha vida.

Vi nela o orgulho que tinha em mim por ter sido a primeira da família a licenciar-se. Via nela o gosto de me ver trajada.

Partilhávamos o mesmo amor pelo Natal. Todos os anos, no dia 1 de Dezembro, ela vinha para a minha casa para me ajudar a fazer o presépio. Um presépio enorme que herdei dela. Uma tradição que irei sempre manter.

Já não me lembro nem da voz nem da gargalhada dela. Lembro-me sim do seu esparguete com carne e do seu bife de peru com alho e batatas fritas. Lembro-me de a chamar na rua pela janela “Oh Vóoooo” e ela vir a correr para me ver.

Lembro-me do quanto ela pedia aos netos um bisneto. Morreu já sendo bisavó sem o saber.

Morreu num dia que nasceu soalheiro mas que terminou frio e nublado numa noite de lua cheia.

Sei que ela está viva em mim e vive sobretudo através das memórias da minha irmã.  A minha irmã sabe todas as histórias. Ela sempre gostou de as ouvir e fixou tudo. Eu tenho (quase) todas as fotografias.

Sei que ela nos deixou para finalmente reencontrar o meu avô António que partiu há já 27 anos. Foram continuar no céu uma das mais bonitas histórias de amor.

Estes dois foram os melhores avós do mundo, que nos apertam o coração de saudade todos os dias, mas que todos os dias se juntam ao bater do nosso coração.

Estão ambos connosco. Estão ambos em nós. Sempre atentos e a protegerem os filhos, os netos e os bisnetos.

 

Minha avó Irene…saudades enormes tuas. Da tua “mochila nas costas”, da tua gargalhada,do teu sinal na testa, do teu chá, das tuas mãos e do teu lenço debaixo da manga.

Que nos sintas sempre como nós te sentimos em pequenas coisas.

A dor não diminuiu. A dor não foi passando com o tempo. O tempo, afinal, não cura tudo. Ameniza, mas não pára a dor que sentimos quando pensamos em quem já partiu. Quando nos permitimos mostrar as saudades que temos, a dor magoa igual à hora em que se soube que ela tinha partido.

O tempo é a mentira mais piedosa que inventaram para nos fazer continuar. Porque no fim de contas, há que continuar. Afinal, a verdade, é que o tempo não pára.

E cá estamos nós mais vazios… a continuar.

 

Idos, nunca esquecidos.

 

Eternas saudades.

 

 

 

10 Novembro, 2016

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