Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Ela.

Ela não sabe lidar com tudo isto.

Ela não sabe parar.

Não sabe manter a distância. Fazer “off”.

Ela não sabe como pedir ajuda e ninguém ouve os seus gritos. Ninguém escuta a sua dor. Ninguém repara. Ninguém nota. Ninguém vê.

Ela sente-se sozinha.

Ela sente-se como se se estivesse a afogar.

O corpo está aflito. O estômago revoltado. A cabeça tonta.

Quer pedir ajuda mas as palavras não saem. Não consegue falar.

Ela quer que percebam a sua dor sem ter de a explicar.

Uma dor que corta de dentro para fora.

Um acumular de meses e anos de silêncios. Anos e meses sem nunca negar ajuda aos outros.

Meses e anos a colocar todos os outros em primeiro lugar.

Ela vem depois. Sempre depois.

Ela tem medo da morte.

Tem medo que os que ama morram. Tem pensamentos que não consegue evitar.

Pensamento mau equivale a bater três vezes na madeira. Diz que afasta as coisas más. Que as evita.

Ela procura um bocado de madeira sempre que se lhe falha a razão e a ansiedade a consome.

Sempre de dentro para fora.

O seu corpo acusa a pressão e não a deixam esquecer isso.

Ela não consegue respirar.

Ninguém a ouve ou a sente afogar.

Ninguém. Apenas ela o sabe.

Ninguém a vê chorar. Ela acha que todos pensam que ela não chora.

Ela é uma excelente atriz. Ninguém percebe nada do que se passa com ela porque o sorriso está sempre lá.

O sorriso é o seu batom e as palavras o seu perfume.

Fingir que está tudo bem é bom porque enquanto finge não sente tanto, diz ela.

Tem medo do escuro. Tem medo da noite.

Precisa de ser abraçada, beijada. Precisa de sentir que não está assim tão só.

Os anos passam. Ela só consegue pensar naquilo que não viveu. Só pensa no que ainda tem por viver.

E assim não consegue libertar-se da ansiedade que a consome. Que a mata.

Os comprimidos são o seu escape. As suas “drogas” são os ansiolíticos.

Depende deles para viver mais uma noite. Para conseguir sobreviver no escuro. Para conseguir respirar fundo.

Respira fundo, dizem-lhe. Respira fundo. Não te esqueças de respirar.

Relaxa. Pratica Ioga.

Medita.

Foge para o teu lugar seguro, dizem-lhe. Ela não tem nenhum.

Feita de amor e de dor.

Sozinha.

Ela. Apenas ela e os seus medos.

Ela pega no seu pulso e sente a sua pulsação. Está viva. Há esperança pensa ela.

Agarra-se à única coisa que conhece: os seus sonhos.

E mesmo nos sonhos sente ansiedade.

Ela vai vencer.

Ela sempre vence.

 

21 Junho, 2016

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4 thoughts on “Ela.

  1. Adoro que contra todas as adversidades tu continuas de cabeça erguida. Tenho imenso orgulho em ti. Todos podemos cair mas e como nos reerguemos que importa. E por mais que te “atirem” ao chao tu voltamos sempre mais forte. <3

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