Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Eu e a Alopécia

Quando era miúda era o pesadelo de qualquer cabeleireira. Tinha um cabelo comprido e super super grosso. E orgulhava-me imenso disso.

Um dia apanhei piolhos, devia ter uns sete ou oito anos e a minha mãe, depois de doses industriais de “Quitoso”, viu-se obrigada a cortar-me o cabelo “à garçon”. Chorei durante horas. Mas o meu cabelo rapidamente voltou a crescer e eu aos dez anos tinha o cabelo abaixo do peito e com “ondas” apesar do meu cabelo ser mais liso que uma vassoura.

Os cortes eram todos à la Britney Spears (não consigo justificar isto).

Cada vez que entrava na Teresa e na Gina (donas de um cabeleireiro aqui no bairro), elas até se benziam porque o meu cabelo era mesmo grosso e rebelde. O danado tinha vida própria (e ainda hoje tem, apesar de tudo).

Só para terem uma ideia, secar demorava na boa uma meia-hora. Eu era mesmo um pesadelo.

Mas um dia, depois de dar cabo dos nervos à minha santa mãezinha, fiz uma permanente. Tinha quase 15 anos. Nunca mais fui a mesma. Quando a coisa terminou eu parecia a Dona Urraca!!
Em puro desespero, mal cheguei a casa fui lavar a cabeça para ver se o volume baixava. Elas bem me disseram que não podia lavar o cabelo até fazer 48 horas mas a ânsia era tanto que quando dei por mim pumbas…e a coisa só piorou.

Depois, passadas umas semanas, a minha mãe teve de ceder e fomos exterminar a permanente. Péssima ideia.

E assim começou a viagem ao mundo da desgraça capilar.

Como sou de ideias fixas, devo ter feito mais duas permanentes / ondulações suaves (LOL) e, claro, alisamentos.

Mais tarde decidi brincar às cores. Brinquei tanto ou tão pouco que me custa lembrar da minha cor de cabelo natural. Juro!

Como os brancos começaram cedo, passei a pintar com o objetivo de esconder a coisa e é assim até hoje.

Pelo meio, entre os 24 anos e os 28, comecei a sofrer de uma enorme queda de cabelo. E não era uma coisa pontual. Era sempre. E muito.

Fiz Praia-Campo mais de uma década, então no Verão era tentar remediar os estragos que o sal faz no cabelo com muita máscara. Ou não. Mas eu bem tentava.

Para piorar, a doença de Crohn não veio ajudar. A medicação não ajuda e os meus ataques de pânico e constante ansiedade deixam-me careca. Mesmo. Careca.

Hoje em dia sofro de Alopécia.

A Alopécia  é “uma doença caracterizada pela rápida e repentina perda de cabelos do couro cabeludo ou de qualquer outra região do corpo. Nesta doença, o cabelo cai em grandes quantidades em determinadas áreas, proporcionando a visualização do couro cabeludo ou da pele que antes era coberta por cabelos ou pêlos corporais. Ela possui diversas causas e, consequentemente, diversas formas de tratamento.” (fonte:www.tuasaude.com/alopecia)

Oh yeah bebés, este é um grande problema. Acreditem.
Já experimentei de tudo:  Inneov, Acutil, Viterra, ampolas de quase todas as marcas e nada. Não me fazem nada.

Pensei muito se vos contava isto ou não mas depois pensei: “Vou ter vergonha porquê? Não fui eu que escolhi ter queda de cabelo, não sou eu que não tento curar esta coisa. Certamente não sou a única a passar por isto. Quem sabe não ajudo alguém a não se sentir sozinha nesta luta?”

Alminhas, para o bem e para o mal, tenho um blog para poder ter uma voz. Para poder falar do que me der na real gana. E pretendo escrever sempre com verdade e com esperança que alguém leia e se sinta menos só.

Isto da queda de cabelo acentuada e à bruta é mais comum nos homens e nós mulheres damos muita importância ao cabelo. Nos homens já não choca mas nas mulheres sim. Nas mulheres é uma vergonha. É tabu. Finge-se que não se passa nada, que ninguém vê nada.

O cabelo é uma coisa muito feminina, muito sensual. Um cabelo comprido, na minha opinião, é do mais sexy que há. Então isto mexe muito com a auto-estima da mulher. Não é fácil procurar o lado que tem menos queda para fazer um risco e tentar disfarçar a coisa. Não é fácil querer fazer um rabo de cavalo e ver-se nitidamente onde está a falha. Muito pior é ter-se um primeiro encontro, uma saída com alguém especial, um encontro com amigos e não nos sentirmos seguras com a nossa imagem. Não estarmos confiantes.

Às tantas perdemos a real noção e vemos tudo aumentado.

Quantas vezes me dizem que eu estou a exagerar, que mal se nota ou que tenho imensos cabelinhos novos a nascer?

Mas há sempre alguém frontal e honesto o suficiente na nossa vida para nos dar um banho gelado de realidade. Eu tenho a minha irmã. Ela nunca me mente nem me diz nada para eu ficar contente. Ela diz-me as coisas tal como elas são e sem grandes floreados.

E isso é uma coisa que dói mas que é preciso. Já a minha mãe é exatamente o oposto. Diz que mal se nota mas depois fica horas a olhar para o meu couro cabeludo e, como se preocupa, é ouvi-la dissertar sobre medicamentos, ampolas, produtos naturais, frutas, legumes e afins que ajudam no crescimento do cabelo e param a queda.

Não gosto de saber que tenho dois buracos no cabelo de cada lado. Não gosto de me ver ao espelho assim. Há dias que só me apetece rapar a cabeça na esperança que ele cresça mais forte. Há dias que me penteio sem olhar muito para o cabelo.

Antes do final do ano fiz um corte, que para mim foi drástico, em dia de lua cheia (para engrossar o cabelo). “Mézinhas” do tempo da minha bisavó, que passam de boca em boca, mas nas quais acreditamos desde miúdas.

Tinha o cabelo abaixo do peito, bem abaixo do peito, e cortei pelos ombros. Por acaso adorei o resultado e penso que me estava a fazer falta mudar um bocado mas sobretudo só pensava que Ok, não era o ideal mas tinha de ser porque assim o cabelo ficou menos pesado e se pesa menos só pode cair menos.

Só que até agora a única parte boa é gastar menos champô e amaciador.

Está tudo na mesma por aqui e eu pareço a Miss Cabelos por todo o lado. Até agora, resultados, nada.

Eu tento ver isto tudo por um ângulo bem disposto e fofinho, do género tudo passa e amanhã vai ser melhor, mas não é bem assim. A minha bolha não dá para tudo.

As pessoas, apesar de não falarem, vêem e isso é o que mais custa. Isso e ver mulheres com cabelos fortes e lindos. Dá-se-me para a inveja, do género “opáaaaa, a menina quer tanto um cabelo assim!!!!”

Um dia, quando trabalhava numa escola e lavava casas de banho, uma colega disse-me “Tu muda de risco porque o risco ao meio está sem cabelo”. Lembro-me que só me apetecia esganá-la. Fui para casa a sentir-me envergonhada e humilhada. Chorei muito porque levei aquilo muito a mal. Mas ela tinha razão e ela não disse mentira nenhuma. Eu simplesmente não queria aceitar o óbvio e ela só me estava a alertar.

É mesmo um par de estalos. É de facto uma grande humilhação.

Mas só me resta erguer a cabeça, cheia de cabelo de rato bebé, e seguir em frente. Fingir que não custa e que não parte em bocadinhos a auto-estima.

Porque a verdade é que custa muito enfrentar o espelho. Porque custa aceitar esta realidade. Já não tinha eu poucas coisas com que me entreter…só faltava mesmo uma alopéciazinha básica.

Todos os dias procuro “mézinhas” novas, dicas de pessoas que já passaram ou passam por isto, mas nunca achei nada de jeito.

Entretanto vou hidratando bem os fiozinhos que cá andam. Sempre é melhor que não fazer nada.

E é isto.

Amores, se quiserem partilhar comigo a vossa experiência ou os vossos truques, desde que não envolva mel ou óleo de rícino, estou por aqui muita atenta!

E tu que sofres do mesmo, se quiseres trocar desabafos…não estás sozinho/a!

Chiça penico, arranjam tanta coisa para tudo e para nada…já arranjavam a cura disto, não?

P.S: Drª (falo agora para a minha dermatologista), se estiver a ler isto não se zangue comigo. Eu bem avisei que ia reclamar ao mundo.

E não. Eu não consigo entender porque as mulheres ficam carecas. E não consigo aceitar isto.

 


Nota Final: meninas e meninos, se estão a passar por isto, por favor, antes de tudo mais, procurem um bom dermatologista, combinado?

 

16 Janeiro, 2018

 

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2 thoughts on “Eu e a Alopécia

    1. obrigada!
      penso que se tenho um blog devo usá-lo sobretudo para ajudar quem sofre do mesmo.
      para mostrar a quem sofre que não está sozinho/a.
      é importante para mim não escrever só piadas ou dramas ou qualquer coisa em vão.
      quero dar de mim aqui.
      ainda bem que gostaste!
      um beijinho grande!

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