Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Modernices…

No outro dia ao pequeno-almoço não consegui deixar de ouvir uma conversa entre duas senhoras que estavam sentadas na mesa ao meu lado.

Não desatem a chamar-me de “cusca” que eu cá não tenho culpa de ter “ouvidos de tísica” e também não o consigo evitar.

Ok, ok, eu confesso que adoro ouvir as conversas dos outros. Divirto-me imenso com isso.

Às vezes dou por mim a falar com o homem e ao mesmo tempo a tomar atenção à conversa de duas amigas queixosas, às discussões e birrinhas de amor (ou ciúmes) entre namorados ou até as velhotas a reclamar que no tempo delas é que era. Adoro!!!!

Mas continuando.

Enquanto tomava o pequeno-almoço sozinha lá estavam duas senhoras que começaram uma conversa, que me deixou a pensar, apenas e somente porque enquanto eu comia estava a mexer no telemóvel.

Então uma delas, a certa altura, disse que hoje em dia todos somos dependentes dos telemóveis, e que já ninguém vive sem um… e que elas têm saudades dos tempos em que se escreviam cartas.

Olhem, achei aquilo tão fofo que não resisti e sorri e isso foi tudo o que eu precisava para entrar na conversa. E às tantas já estava eu a falar com elas sobre estas modernices.

A verdade é que eu adoro papel. Prefiro mil vezes ler um jornal ou uma revista (o maior vício da minha vida- falarei nisto em breve) do que andar a espreitar o mundo através de um telemóvel. Mas a verdade é que já não vivo sem o meu velhote Samsung.

Nunca fui daquelas que gastam balúrdios num telemóvel. Para mim ele só precisa de tirar fotos, enviar e receber mensagens e chamadas e de preferência permitir-me ir ao Facebook e ao Instagram. Não entendo sequer como há quem consiga gastar mais do que um ordenado mínimo num telemóvel. Mas respeito quem o faz. É sinal que pode. Abençoados.

Mas sou daquelas que não sai de casa sem o telemóvel. Isso é que é o pânico dos pânicos. Posso esquecer-me de tudo em casa, menos do telemóvel e das chaves. De resto…nem ligo.

Foca-te Lipa!!!

Como eu estava a contar… lá me juntei à conversa das senhoras e elas lá me contaram que há anos que não recebiam cartas, a não ser as mensais contas para pagar. Que antes era o maior meio de comunicação e que hoje é um meio mal-amado e quase esquecido.

E assim me lembrei que de facto eu mesma não escrevo uma carta há muito tempo.

Nos tempos do secundário devo ter escrito tantas ou tão poucas, que trocava com as minhas amigas, que devo ter gasto o limite da coisa. Só pode.

Eu e o homem trocamos bilhetinhos, deixamos recados e notas de amor no frigorífico lá de casa…mas de facto não é a mesma coisa que escrever uma carta.

A emoção de ver o nome de uma pessoa querida no envelope, a excitação de abrir o mesmo (que muitas vezes levava aqueles cortezinhos horríveis nos dedos que ardem como se não houvesse amanhã) e ler o que lá está dentro é algo que há anos não sinto.

Hoje em dia é tudo por telemóvel (mensagens) ou por correio eletrónico.

A palavra escrita divorciou-se do papel.

Não acham triste? Uma paixão tão antiga terminar assim…

Não acham que nos tempos em que as palavras casavam com o papel tudo era mais demorado mas com mais sabor?

Ainda se lembram da última vez que receberam uma carta?

Uma carta de amor, uma carta de uma amiga que foi morar para Austrália, de um primo que foi trabalhar para o Luxemburgo ou um postal de uma amiga que foi passar férias no Alentejo…

Eu lembro-me e não devia ter mais de 21 anos. Foi nessa altura que recebi a minha última carta.

Claro que desde então já recebi postais…mas cartas não me recorda de todo.

Não é triste?

Vejam, hoje em dia já mal se compram jornais. Revistas idem. Mas já contaram quantas mensagens ou mails se trocam por dia?

Sou a única a ficar chocada com esta distância que se criou, mas que no fundo até nos torna mais próximos?

Não, isto não foi um momento bipolar. A verdade é que hoje estamos sempre contactáveis e à distância de uma mensagem ou uma chamada em qualquer lado. Mas e isso chega?

Estaremos realmente mais próximos uns dos outros ou isto é só um disfarce?

Conhecem de facto todos os vossos amigos do Facebook ou nem por isso?

Tudo o que fazem só é válido se escarrapacharem no Instagram e se tiver “many likes” ou não?

Não me interpretem mal, eu uso imenso essas duas aplicações mas a minha vida vivo-a fora da internet (mesmo que as pessoas assumam que não, porque eu coloco imensas coisas no meu Face) e só la ponho o que eu quero.

Se bem que conheço gente que até depois de ir à casa de banho tira uma foto ao rolo do papel higiénico com a seguinte legenda: “Estava com cólicas e isto deu em mer@@! Já viram a despesa? #estou cagada com isto”

Acham que eu exagerei? Pessoínhas, acreditem que há pessoas assim e infelizmente eu já conheci uma.

É um exagero. É um viver em falso. É um viver viciado em likes como quem espera e desespera pela aprovação dos outros.

Conheço pessoas que o melhor que faziam era ir a um psiquiatra (não se ofendam todos que esta dica foi só para os taradinhos que até quando flatulam comunicam ao mundo).

Mas já me alonguei e já me afastei do tema.

A verdade é que os tempos são outros. A verdade é que ainda sou do tempo em que não haviam telemóveis.

A verdade é que quando se gosta da palavra escrita continua-se a comprar livros apenas porque adoramos o toque e o cheiro das folhas.

E eu cá continuarei a gastar um dinheirão todas as semanas em revistas, porque não há vicio melhor que este!

Mas vou repensar isto das cartas. Há muito que não escrevo uma. Há mais tempo ainda que não recebo uma.

Vou voltar a escrever.

 

Acho que acabei de descobrir o primeiro “goal” para 2017.

 

 

13 Novembro, 2016

 

 

 

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