Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Não quero ser mãe. A decisão que me levou à SIC e deixou imensa gente a querer saber mais.

Não minto se vos disser que este post está-me a ser pedido desde que fui ao programa “Queridas Manhãs”, da SIC, no passado dia 4 de Janeiro.

Desde esse dia que tenho sido muito abordada sobre este assunto.

As pessoas querem saber as razões, os porquês, querem tentar fazer-me mudar de ideias…enfim, querem que eu me justifique.

Ora bem, e que fique muito claro, este post não serve para justificar seja o que for porque penso que a minha escolha não deve ser posta em causa nem deve ser questionada. Deve sim, ser respeitada da mesma forma que eu respeito as opções e as escolhas dos outros.

Assim que saí do direto comecei a receber imensas mensagens e telefonemas de apoio e sobretudo, muitos desabafos. Foi quando me apercebi de que afinal, não estou sozinha nesta decisão.

A minha página do Facebook foi inundada de comentários e mensagens privadas de pessoas a darem-me os parabéns pela coragem de falar em público sobre um assunto tão tímido e conversado apenas às escondidas. Mulheres de todas as idades estavam a falar comigo sobre isto. A dar-me a sua opinião. Algumas desabafaram.

Mas nem tudo podia ser bom. Claro que recebi mensagens de todo o tipo. Umas dizem que não tarda muito mudo de ideias, outras dizem que estou a ser injusta e egoísta com o meu homem, outras que isto é anti-natural e eu vou-me arrepender quando for velhinha e também há quem me tenha perguntado se sou “seca” (achei este termo absolutamente estúpido, não vou mentir). Adiante já vos falo mais disto.

Ora bem, não quero ser mãe. Não digo nunca. Digo não quero.

Não posso dizer nunca porque nunca não é algo que eu diga em nada na vida, que isto a vida já se encarregou de me mostrar que não sou eu que mando e que a minha opinião só conta 10%. Se tanto.

Mas se há coisa que eu sempre gostei na vida foi de ter opções. Adoro saber que posso escolher. Gosto de saber que posso escolher entre pintar o meu cabelo de ruivo ou loiro, que posso fazer franja ou não, que posso optar entre beber ice tea de limão ou coca-cola…Ok, agora foram comparações meio tontas, mas o que quero que se entenda é que prezo muito o meu livre-arbítrio.

Eu sei que este é um tema controverso. Que arrepia as senhoras mais velhas, do qual as mais novas falam em surdina, que põe os meus pais a chorar e 98% das mulheres a dizer “ai rapariga que Deus te perdoe!”. Todas elas mães, leia-se. Uma escolha que não é exclusivamente minha mas que eu assumi e isso nem todas têm a coragem para o fazer. Mas pudera…com estas reações é mais fácil esconder a coisa.

Agora imagine-se assumir isto na televisão. Mas e porque não? Porque tenho que dizer que quero ser mãe só para não arranjar discussão? Porque não posso tentar fazer os outros entender que este útero é meu e sou eu quem manda nele? Ah esperem…tenho 33 anos por isso permitam-me, já agora, que mande na minha vida e seja dona das minhas escolhas. Volto a repetir que não digo nunca. Isso já eu aprendi a não dizer. Mas digo um grande não quero. E sinceramente não sabia que estas duas palavrinhas tinham um efeito tão histérico sobretudo nas mulheres. Mas tem.

Eu não tenho nada contra quem quer ser mãe. Pelo contrário. Sou tia, e quando a minha irmã ficou grávida foram os 9 meses mais ansiosos e bonitos da minha vida. Hoje tenho um sobrinho (e afilhado) que amo e é a luz da minha vida. E sou tia de muitos mais sobrinhos de coração. Dou catequese desde os 18 anos e acreditem, adoro crianças. Sou madrasta, vá odeio esse nome e gosto de pensar que sou uma “boadrasta” (aprendi esta com a linda da Catarina Furtado), adoro o meu enteado, mas parir uma criança não é o sonho da minha vida. Não nasci com essa vontade, acho honestamente que nasci sem relógio biológico ou que se ele cá anda, está estragado. Talvez sem pilhas. Não sei nem quero saber porque não quero ter filhos. Mas posso tê-los. Não sou seca.

Quando me perguntaram se era “seca” confesso que fiquei na dúvida se era uma pergunta a sério ou se estavam a brincar. Não sou, mas e se fosse? Já era aceitável que eu não fosse mãe?

Esta coisa da pena tem muito que se lhe diga…

O que eu sei é que mais vale não os querer ter que tê-los só porque essa é a obrigação da mulher. Porque a mulher nasceu  e foi feita para ser mãe. E depois vemos o telejornal e reparamos que o que não falta são pesadelos de mulheres (não as posso chamar de mães) que maltratam os filhos, que os abandonam, que os espancam, que os fazem passar fome, que os matam. Ora, se é para ser esse tipo de mãe mais vale estar quietinha não? E não julguem que isto foi “falta de mãe”. Tenho a melhor mãe do mundo. Uma mãe presente que me mima como se eu tivesse ainda 10 anos. Uma mãe que é também uma melhor amiga. Uma mãe que é toda amor. E eu sou feita de amor tal como ela. Mas não quero ser mãe. Não sou menos mulher por isso. Sou mais por o saber e admitir. Não sou pior tia ou pior “boadrasta” por isso. E o homem com quem partilho a minha vida entende-me. Não me força a nada, não exige. Penso que ele tem esperança que um dia o meu relógio ganhe pilhas e desate a berrar dentro de mim mas sei que mesmo que isso não aconteça, que ele me vai amar sempre. Porque o amor é isso mesmo: aceitar o outro como ele é. Amar o outro como ele é.

E amor na minha vida não falta. Nunca faltou. Apenas (sempre) tive outros objetivos, sobretudo profissionais. Torno a repetir: Nunca digo nunca mas agora digo um grande não.

E vá lá, admitamos que a liberdade de uma vida sem filhos sabe bem. Poder dar prioridade aos meus sonhos, à minha vida profissional, mandar na minha vida, não ter o coração fora do peito o tempo todo, fazer o que me der na “real gana” sabendo que as minhas decisões não vão afetar a vida de mais ninguém e (a cereja no topo do bolo) poder dormir até tarde no fim-de-semana, são mais outras razões que me vão fazendo decidir não ter filhos.

Às vezes vejo uma mãe a fazer festinhas no seu filho, uma grávida a acariciar a barriga, ouço todas falarem de como é a melhor coisa das suas vidas e pergunto-me, comovida, e até com alguma tristeza e meio perdida, porquê esta não vontade? Porque não arriscar e dizer “que se lixe. Isto é capaz de correr bem. A vontade ganha-se. Bora lá”?

Mas este pensamento dura mais ou menos 5 minutos porque depois vejo-as a desdobrarem-se em mil, vejo-as cheias de sono, desesperadas porque os pequenos não lhes dão 5 segundos de descanso e passam o tempo todooooo a chorar e volto logo a mim. Mas fico orgulhosa delas. De serem as mães que são, para mim, verdadeiras super-mulheres. Cheias de amor pelos seus filhos. Sejam eles umas pestes ou não.

Sabemos, se dúvidas houvessem, que o tema é falado e que suscita interesse quando vemos que a “Pipoca Mais Doce” escrever  sobre o que viu nesse programa. (A PIPOCA SENHORES!!!)

Ora bem, o direto foi uma experiência nova. Já fiz muita coisa mas nunca em direto então confesso que os nervos me atrapalharam um bocado nos primeiros 30 segundos de conversa. Depois disso senti-me em casa no meio de tanta gente que nunca vi na vida. Sei lá eu por que razão quando ouço o “tá no ar” sinto-me em casa. Quando tenho as luzes sobre mim e as camaras a gravar…nem sei explicar sabem? É como se sempre tivesse feito aquilo. Nem consigo descrever a coisa melhor.

Mas continuando, à minha frente só duas caras familiares: a Júlia Pinheiro e o João Paulo Rodrigues. Ao meu lado uma outra convidada (também ela dona de um Blogue) que já é conhecida e amiga dos apresentadores.

Senti que a outra convidada estava muito mais à vontade que eu. Já anda nisto dos diretos há mais tempo. Mas a opinião dela sobre este tema é muito diferente da minha. Em tudo. É mais irredutível. Ela não quer mesmo e diz nunca sem hesitar. E a nossa maior diferença foi essa mesmo. E estávamos lá por isso mesmo. Unidas na mesma vontade mas afastadas pelas certezas (ou incertezas).

Confesso que os meus argumentos, como lhe chamou a Pipoca, comparado com os dela são mais inconstantes, menos seguros, mas válidos. Ela está decidida já eu não tanto quanto ela.

Ela e eu temos histórias e experiências de vida diferentes, como é obvio. Logo não iríamos ter nunca a mesma opinião. Mas temos, neste momento, a mesma vontade.

Nenhuma de nós tem medo do parto. Nenhuma de nós tem medo que o corpo fique diferente depois do parto. Também não são esses os motivos que nos levam a dizer que não queremos.

Ela não quer. Eu não quero. Ela diz nunca e eu não digo o mesmo. Aí está a nossa diferença.

Foi mencionado também que eu gosto de provocar as pessoas ao dizer que não quero ser mãe. E é bem verdade, mas não sempre. Só com as pessoas que tendem a não aceitar e que insistem em tentar “dar-me a volta” ou a criticar como se não houvesse amanhã. Por favor, poupem-se. Não é assim que isto funciona. E quanto mais insistem mais gozo me dá, confesso,  dizer não quero.

E depois vem a história do costume: “Então é catequista e não quer ter filhos? Que diz a sua Igreja sobre isto? Não é ensinado na catequese que devemos crescer e multiplicar-nos?” Podia responder a isto mas reservo-me ao direito de não o fazer. E não pensem que é por não ter argumentos ou uma resposta “decente”. É exatamente por ter uma resposta bem assertiva que não respondo.

Porque ser católica e ser catequista não me faz sentir na obrigação de ser mãe. Nunca. Porque a Igreja não é para aqui chamada. E porque estou muito bem resolvida com Deus. Já com os que andam pela Igreja nem tanto. Mas mais não digo.

Seja como for, entendo que queiram saber ao detalhe as razões desta minha decisão mas tudo o que eu disser a partir daqui começa a ser redundante.

As razões foram explicadas e a não ser que desate para aqui a inventar desculpas, não há muito mais para dizer.

Sabem qual é mesmo a parte boa de se falar nisto? Ver cada vez mais mulheres a falar sem pudor sobre este tema. Ver cada vez mais mulheres a assumir esta escolha sem receios.

É bom saber que estou a ajudar nem que seja só 1% nisto.

Obrigada a todos pelo apoio. Obrigada também aos que criticam porque me motivam a falar mais sobre isto.

E, para os que não puderam ver, fica aqui o link do programa “Queridas Manhãs”.

Espreitem!

http://sic.sapo.pt/Programas/queridasmanhas/queridasmanhas_lista/2016-01-04-Assumo-Eu-nao-quero-ser-mae

 

29 Março, 2016

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2 thoughts on “Não quero ser mãe. A decisão que me levou à SIC e deixou imensa gente a querer saber mais.

  1. OBRIGADA!! Mil vezes obrigada por partilhares algo tão pessoal da tua vida. Acredito que existam imensas mulheres a partilhar da mesmo opinião que tu mas às quais a sociedade aponta o dedo como se esta decisão de não querer ter filhos (agora ou jamais em tempo algum) fosse um sacrilégio.
    #teamlipa
    Estiveste muito bem no programa. Aquilo é a tua praia =)

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