Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

“Olha a magra”!!!

A minha mãe é das mulheres mais bonitas e elegantes que eu conheço. Loira, de olhos azuis esverdeados, magra, sempre cheirosa e bem vestida. Cresci a admirá-la quando se arranjava para sair. Seja para ir trabalhar ou para ir comprar pão, ela sai sempre à rua impecável.
A minha mãe é a mulher mais vaidosa que eu conheço. E tem motivos para isso. Dela herdei o gosto em cuidar de mim. Ganhei dela o hábito de usar cremes, de cuidar das unhas, de andar sempre perfumada.
O meu pai é mais relaxado. Conhecido por ser magro, mas com apetite de leão, não liga nenhuma a cremes porque isso não é coisa com que se perca tempo, veste-se como lhe apetece sem ligar ao que possam dizer, e a única coisa que não dispensa é o seu perfume e o seu pente no bolso da camisa, não vá o vento fazer das suas.
Ora se tomaram atenção, os dois têm uma coisa em comum: são ambos magros. Elegantes, como lhe quiserem chamar.
Assim sendo, não haviam muitas probabilidades de eu ser uma “balofa”. Sou magra. Sempre fui magra. Tenho fotos minhas, pré-adolescente e adolescente, em que a única diferença entre mim e um pau de vassoura era o meu cabelo tipo “poodle”.
O meu peito só cresceu aos 14, pouco depois de me “tornar senhora”. Lanchava cozido à portuguesa com frequência e “mamava” crepes que era uma coisa louca. Nunca engordei.
Sempre fui magrinha. Mas sempre tive anca e rabo. E sempre adorei as minhas ancas e o meu rabo. O peito nunca foi lá muito grande mas também não sou a Shakira. Gosto do que tenho.
Mas gostava mais do meu corpo antes de me ser diagnosticada Doença de Chron.
(Doença de Chron: doença crónica inflamatória séria do trato gastrointestinal)
No dia 29 de Agosto de 2006, acordei a passar super mal, com vómitos e diarreias de cor negra (era sangue), e percebi de imediato que alguma coisa estava errada. Ainda pensei, confesso, que aquilo era dos chocos com tinta que tinha jantado, que vai e uma pessoa arranja desculpas para tudo…mas dois dias depois quando fui ao médico e me encaminharam com urgência para o serviço de gastroenterologia percebi que tinha ali um problema dos “bons”. Outro claro sinal de que algo estava extremamente errado comigo foi que perdi 15kgs. Assim, tipo “vapt vupt” como quem pisca os olhos. De 60kgs passei para 45kgs…e assim fiquei por dois anos.
No dia 20 de Novembro do mesmo ano, dois dias depois do casamento de dois grandes amigos e um dia depois dos anos da minha irmã, foi-me dito que afinal não era cancro. Era doença de Chron.
Não me vou alongar neste post sobre a minha doença. O objetivo deste post não é esse. Mas em breve falarei convosco sobre este meu “contratempo” (não lhe chamo doença porque não me aceito sendo uma pessoa doente. Recuso-me dar-lhe tamanha importância!)
Este post é para explicar porque sou magra. Explicar sobretudo, que sempre fui magra. Que venho de uma família de gente magra. Sou magra senhores!!! E agora o que querem que eu faça? Não há nada que consiga fazer para o evitar e acreditem que eu já tentei de tudo! E quando digo tudo, é mesmo tudo! Já tomei gemadas em jejum pela manha, já me enchi de “Cerelac” umas 5x ao dia, como coisas calóricas a toda a hora…e isto não vai la. Só ganho celulite porque peso é brinquedo.
Sou magra! Coma o que comer, não engordo.
Umas dizem: sortuda. Outras dizem: cabra (claramente isto são as invejosas) mas o que ninguém entende é que ser magra pode fazer-nos sentir tão mal quanto ser gorda.
Eu quero engordar e não consigo.
E só para ajudar, muito gostam as pessoas de volta e meia me vir dizer: “ó Filipinha tu andas bem de saúde? Tás tão magrinha”…
Vejam, eu ouvi isto pelo menos umas 10 vezes só no fim-de-semana passado. Na verdade, não há um dia em que não encontre alguém na rua que não me diga: “ó Filipinha tu estás tão magrinha, filha. Nota-se tanto na cara…tu tens de comer mais”…
Pois aqui a Filipinha faz o que pode. Eu bem tento meus amigos. Mas a juntar à genética tenho uma doença que me chateia os intestinos e ajuda mais depressa a perder peso do que a ganhá-lo….Já nem falo em mantê-lo.
Não gosto de ser magra. Detesto. Mas sou. Não há nada a fazer. Mas agradeço imenso que percebam que ser-se chamada de magra dói tanto quanto ser-se chamada de gorda.
Penso que as pessoas não têm noção de que é muito mais difícil engordar do que perder peso. E se tiverem dúvidas eu aceito apostas! E aviso já que quem apostar perde!
Mas o engraçado da coisa é que não há muitos homens que me chamem magra. Lá um ou outro me diz isso mas a esmagadora maioria são mulheres. E dizem com ressabiamento como se eu estivesse a provocá-las. Nota-se que ficam ofendidas com a minha magreza. Sinto maldade no tom do que me dizem. E algo me diz que lá no fundo até querem saber o “truque” da coisa. Coitadas, não sabem o mal que invejam.
Ser chamada de magra magoa-me. Dói-me. Fico a pensar nisso horas…dias.
Demorei dois anos a recuperar os 15kgs que perdi na fase da descoberta da doença. Hoje peso 58kgs. Não dei por ter perdido uma grama mas ainda hoje me disseram “ai Filipa, você está mais magrinha não está?”
Educadamente respondi: “não, peso o mesmo de sempre. Deve ser impressão sua”.
Resposta que realmente queria dar: “olha lá pá, e se me deixasses sossegada e não me desses uma opinião que não te pedi? E se te apercebesses de como fiquei quando disseste isso? E se visses nos meus olhos o quanto me feriste ao dizer-me que estou magra? E se fosses educada e apenas me perguntasses se está tudo bem comigo? Não tens nada de jeito para dizer então cala-te criatura”!
Mas não. De cada vez que me dizem isso eu sou sempre educada e faço de tudo para mudar de assunto rapidamente para a coisa parar de doer.
O meu homem diz que adora o meu corpo. A minha barriga lisa. As minhas ancas e o meu rabo. Que ama a minha celulite (aqui já acho que é graxa, mas vá…) ele fica pior que eu quando eu chego a casa e lhe digo que alguém me chamou magra. Não porque ele ache que o sou mas por achar que as “gajas” são más umas para as outras. Por achar que fazem de propósito. E são. E fazem. Porquê? Não sei… só sei que eu não sou assim. Sou a primeira a elogiar uma mulher bonita quando a vejo. Seja gorda ou magra, alta ou baixa. E acredito que devíamos todas ser assim. Porque isso é o certo. Mas não é assim. E isso é tão triste.
Um dia estava no Centro Comercial Amoreiras e vai daí no meio dos detergentes encontro uma rapariga que não via há meses e que depois de alguma conversa de circunstância me diz com um enorme sorriso: “Tás mais magra tu…” bom, nesse dia não fui eu quem deu resposta. E vá lá que o homem até que se controlou. Ele ficou em “broa”. E eu…doeu-me. Como sempre. E ele sentiu. Ele viu como eu fiquei dorida.
Mas a culpa é minha. Ele tem razão quando me diz isto. Não devia deixar que estas coisas me afetassem tanto. Já devia ter estaleca para ouvir e marimbar-me para o que me foi dito.
Portanto hoje venho aqui informar que da próxima vez que me disserem que estou magra eu vou responder: “se não tinhas nada de jeito para dizer mais-valia teres ficado calado/a”.
Fica o aviso. Porque cansei-me que doa. Cansei-me de permitir que façam doer.
Cansei-me de ser julgada por não ser toda gordinha ou com as curvas da moda a la manas Kardashian. Tenho as minhas curvas. Aquelas que o meu homem ama. Aquelas que são as que consigo ter. Adorava ter o corpinho da Jéssica Athaíde ou da Rita Pereira…ah esperem…elas também são magras!!!!
De facto, mais depressa preferia ganhar peso do que ganhar o Totoloto mas pronto…é assim a vida. E agora que já disse tudo vou até ali meter o Totoloto porque “cheira-se-me” que sou capaz de ganhar qualquer coisa! Pelo caminho fico a sonhar com o dia em que as mulheres deixam de ser umas cabras umas para as outras. É que mulheres, isto não faz sentido nenhum. Os homens são muito mais unidos. Não se maltratam uns aos outros. Porque não somos assim também? Porque é que só estamos bem a tirar as medidas a uma outra mulher de forma depreciativa? Porquê???
Por favor, comecem a viver mais a vossa vida. Parem com isso. Isso é feio!
Preocupem-se com o que de verdade importa.
E vá, não se preocupem tanto comigo. Eu estou bem e quando não estiver, cá vos informo através de um post que eu sei que vão gostar muito. Fica prometido!

 

 

5 Março, 2016

Os-corpos

 

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6 thoughts on ““Olha a magra”!!!

  1. Tenho 32 anos ,1,67m e peso 55 kg , sempre fui magra , mas agora como mais saudável do que antes porque tenho uma filha e há que dar o exemplo, nao sei o que mudou mas nos últimos tempos toda a gente na rua diz ir estou magra, respondi sempre educadamente até hoje e fiquei a sentir me mal com isso, é que hoje foi o senhor da bomba de gasolina “está muito madrinha” não sei se foi por estar de preto e passei-me e respondi “quando vê um gordinho também lhe diz está muito gordinho !?” O homem ficou sem saber o que dizer… eu também não sei o que responder .. é que tenho bom aspecto pelo menos do feedback de casa e nas fotos não percebo … este texto ajudou qualquer coisa .. obrigada

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