Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Para a Anita

Hoje acordei e tudo indicava ser um dia como os outros.

Mais uma segunda-feira, mais uma manhã em que me arrependo de não me ter deitado (muito) mais cedo, mais um dia em teletrabalho… tudo igual, se bem que nem há uma hora ficou tudo diferente.

Nunca escondi de ninguém que sou ansiosa, que já sofri de depressão, que tenho ataques de pânico, que tomo medicação, etc etc etc. O que talvez nunca tenha partilhado é que dói-me muito mais quando sei que alguém está a passar por isso. Sofro mais do que quando sou eu a sentir tudo isso.

É um enorme sentimento de impotência. Dizer a alguém o que não suportamos ouvir quando estamos aflitos, assustados, com medo, é uma enorme contradição. Não faz sentido. Não poder fazer nada mais do que estar ali a ouvir, ou a partilhar silêncios é doloroso. Esperar que passe, que a medicação faça efeito é desesperante.

Na altura em que estava noiva e a organizar o casamento chegou a uma altura que tive de tratar do bouquet. A florista escolhida foi (e nem houve dúvidas) a florista que acompanha a minha família desde sempre. A “Anita Florista”, em Alcântara.

Lembro-me que depois de explicar o que queria, a Anita desatou a embirrar com as minhas escolhas. Porque eu queria dois bouquet´s (um ficou na Igreja junto à minha Nossa Senhora e o outro seguiu comigo para as fotos e festa) e porque sabia bem o que queria e não queria opiniões, a meu ver, do tempo da Maria Cachucha. Acabei por ser ríspida e mázinha.

O tempo passou e na semana do casamento fiquei a saber que a Anita estava muito doente com uma enorme depressão. O opinar demais e de forma “mandona” já eram sinais de que algo não estava bem numa mulher que me conhece da barriga da minha mãe. A culpa atingiu-me. Quis falar com ela e pedir desculpas mas o casamento era no dia seguinte e acabei por não falar com ela. A chapada de luva branca foi quando ela apareceu na Igreja e assistiu à cerimónia, apesar do estado em que estava. Quis ver-me. Quis estar lá. E como a Igreja estava bonita. Como estava tudo tão bem enfeitado nos Montes Claros. Como ficaram perfeitos os meus dois bouquet´s feitos por ela.

Depois de regressar da lua-de-mel soube que ela estava a ser acompanhada por um psiquiatra e que aos poucos estava a reagir. Ela queria tratar-se. Queria lutar. Queria ser ajudada. Felizmente sempre teve o apoio do marido e da familia. Fiquei mais descansada.

Infelizmente nem sempre as coisas correm bem. Nem sempre a depressão é bem “tratada”. O método do vamos pô-la a dormir não funciona minimamente. Nem com ela nem com ninguém.

O tempo passou-se e eu ia sabendo dela, de como estava, mas fui vivendo a minha vida sem pensar muito na situação dela. Na passada sexta-feira, dia 20 de Fevereiro, soube que tinha sido internada. Outros motivos a levaram ao hospital mas tudo relacionado com a maldita depressão.

Há pouco mais de uma hora recebi um telefonema e soube que a Anita faleceu. Partiu sozinha num corredor do Hospital de São José numa maca de um corredor qualquer. Enfarte fulminante.

Morreu sozinha, cheia de aflições e medos, com uma enorme depressão. Não sou médica, mas acredito que o coração não aguentou a dor.

Amigos, a saúde mental é um tema muito sério. As pessoas morrem de depressão, de solidão, de tristeza, de desgosto, de dor. Morrem porque sentem demais.

Estou triste. Muito triste. O dia começou normal e termina sem cor, à luz de uma vela que acendi por ela no meu pequeno altar cá de casa.

A Anita partiu. Quantas “Anitas” se vão embora assim? O que podemos fazer para evitar isto? Como podemos ajudar mais? O que podemos fazer mais e melhor para cuidar de quem sofre? Bolas, as pessoas andam a gritar mudas. Gritam alto e ninguém, ou poucos, as conseguem ouvir. Um grito calado, quase um sussurro. Quero que se grite bem alto. Quero que todos possam ser ouvidos, ajudados, amparados. Quero que todos tenham as mesmas ajudas que eu tive e ainda tenho. Quero que todos tenham o mesmo apoio que eu tenho. Que saibam que há maneira de sobreviver à dor. Que o sentir de mais pode ser controlado. Que não “sentir” é possível. GRITEM!!! BERREM!!!

Sinto cada vez mais que me quero envolver a 200% neste tema. Que quero ajudar quem está a sofrer. Que tem de haver alguma coisa que eu possa fazer para ajudar a desmistificar este tema e mostrar que não tem que haver vergonhas nem medo dos olhares de piedade ou julgamentos.

Não é querer banalizar a coisa. É querer que se entenda que isto acontece e não há razão para se esconder nada. Que pode acontecer a qualquer um em qualquer altura. E que há luz no fundo do túnel.

Cada vez mais é preciso falar-se neste tema. Não podemos continuar a ignorar que esta é uma doença que mata. Morrem pessoas todos os dias porque sentem tudo a 1000%. E sabe Deus como sentir dói. Como ouvir os nossos pensamentos rasga a alma.

Anita, espero que agora estejas em paz. Espero que agora a dor tenha acabado e os pensamentos se tenham calado.

A ti, que lês isto: se precisas de ajuda, de falar, de gritar… procura ajuda. Não te cales. Partilha tudo o que sentes. Não guardes para ti. Esse caminho só te leva ao abismo. Leva-te ao fim. Luta por favor. Não desistas de ti. Tu és importante. Tu vales muito e vales a pena. Faz-te ouvir e não te cales até que alguém te ouça.

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