Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Para a minha avó

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Olhos castanhos.

Olhar cheio de nada. Vazio.

Olha mas não se reconhece, não se vê. Não sabe que nela já houve uma mulher, uma grande mulher.

Já foi filha, irmã, tia, já foi mãe e já foi avó. Cinquenta anos casada e vinte e tais viúva.

Não se lembra do que comeu ontem. Literalmente.

Não tem a certeza de que dia é.

Olha para nós e reconhece-nos se bem que com dificuldade.

Vive com as suas memórias do passado. Um passado rico em bonitas vivências mas também em muitas perdas e dores.

Fala dos tempos em que era criança com a mãe, da dor da morte do pai, do dia em que conheceu o marido e fala cheia de amor das cartas que trocavam.

Trabalhou desde nova e só se tornou dona de casa quando foi mãe.

Lembra-se de alguns terramotos, da revolução de Abril, das roupas que hoje só se vêm vestidas em fotografias a preto e branco.

Olhamos para ela e vemos pedaços do que já foi.

As saudades esmagam-lhe o peito. Quer lembrar-se do que não consegue.

Vê-se a tristeza quando percebe que já não tem memórias. Pergunta muitas vezes a mesma coisa. Repete perguntas e dá sempre as mesmas respostas.

As fotografias trazem alguma paz mas a dor de não saber quem já morreu e quem ainda está vivo e as memórias daqueles tempos causam ansiedade. Deixam quem não se lembra em pânico.

Quando não entende ri-se.

Mexe muito nas mãos. Umas mãos de uma mulher com mais de 90 anos que foi traída por uma doença que mata aos poucos quem está vivo.

Como se vive sabendo-se apenas quem se é pelo que nos contam?

Conseguem sentir a aflição que é?

E quando a memória volta por apenas alguns minutos? O pânico de que esses minutos terminem nos próximos segundos. Mata muito pouco as saudades que tem dela e dos seus. Destrói-a saber que já não vive em sua casa mas num lar.

Uma mulher que era totalmente independente mas de quem todos dependiam vê-se agora presa numa doença que lhe leva tudo o que já foi e já fez.

O tempo passa e a memória vai-se. De novo. Sem aviso.

Quem vive a doença sofre mas quem acompanha quem a vive morre a cada falha de memória, a cada falha no português e a cada pergunta ou resposta repetida.

Estou certa que esta doença não destrói apenas quem a sofre mas sobretudo os que acompanham. Os familiares pouco ou nada são falados, mas esta doença dói-lhes mais porque eles não se esquecem. Eles sabem que a doença não vai passar, não vai estagnar mas sim avançar a galope até que um dia a pessoa que tanto amam já não é mais que uma sombra de si mesma. Um reflexo sem cor.

A doença de Alzheimer é uma doença que não tem cura. É uma doença que mata quem ainda está muito vivo.

É uma doença que nos rouba quem mais amamos e que chega sem avisos.

 

Dois dos meus avós morreram com esta doença.

 

A dor de quem não se esquece é a que mais dói.

Por isso digam a quem amam que os amam. Digam a quem gostam que os gostam.

Não deixem nada por dizer.

Amanhã não sabemos se nos vamos recordar ou se alguém se vai lembrar do que lhes dissemos.

Digam. Não guardem para vocês.

Digam e gravem esse momento no vosso coração. A doença aí não chega.

 

A minha avó que eu amo e nunca esqueço. Nunca esquecerei.

 

 

6 Fevereiro, 2017

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