Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

Porque escreves?

 

Esta é uma questão que me colocam muitas vezes.

Sempre adorei comunicar. Falo pelos cotovelos, escrevo e leio à velocidade da luz, passo horas em frente à televisão a ver “Trash Tv” e também a aprender e a analisar quem está do outro lado da televisão.

Amo rádio e ainda tenho esperanças de um dia voltar a trabalhar numa. Também sou viciada em revistas e blogues. Sigo imensos e tenho alertas e tudo para estar sempre “em dia”.

E foi assim, como já vos contei, depois de muito tempo a ponderar se devia ou não criar um blogue, que decidi avançar porque realmente fazia todo o sentido. Escrever é uma paixão e a vontade de comunicar é maior que eu.

Mas de há uns tempos para cá tenho vindo a lutar muito contra mim mesma sobre temas que quero escrever mas, que não posso ou não devo.

Não devo porque posso ofender alguém, não posso porque se é sobre um tema sensível há sempre alguém com a mania da perseguição que vai levar tudo o que eu escrever como se fosse para si, não devo porque sei que há quem leia só para ver se eu faço asneira e não posso porque ai de mim se alguém se ofende ou se choca.

Metade de mim pensa: “Ana Filipa, tu tens 34 anos mulher. O blogue é teu. Escreve o que te der na real gana e marimba-te para o resto”.

A outra metade pensa: “Epaaaaa, mas e se fulano ou cicrano depois lê e pensa que o tema é sobre ele/ela? Não me apetece nada ter ainda mais problemas”.

Resumindo e baralhando, sinto-me algemada. Como se me estivessem a cortar o piu. Não posso escrever (vou atirar temas para o ar) sobre aborto, casamentos mal sucedidos, gente cornuda, más mães, maus filhos, gente estúpida, gente que faz mal aos animais ou criticar alguém porque se não depois já sei o que me espera.

Dou-vos um exemplo. Num antigo trabalho, trabalhei com uma criatura que era uma pessoa intragável. Mal educada, ressabiada, intriguista, manipuladora e mentirosa. Só está bem quando está tudo como quer e só sabe dar ordens e humilhar. Má pessoa mesmo. Sabem quantas vezes tive vontade de escrever sobre esta pessoínha ou as mentiras e os falsos que a alminha levantava sobre e contra mim e assim mostrar-lhe que eu sabia o quanto me odiava sem nunca ter entendido o porquê?

MUITAS!!!!

O meu sonho era arrasar a pessoa em praça pública. Mas não o fazia porque sabia muito bem que todos os que lessem me viriam opinar/criticar por ter escrito um post no qual falava mal do pesadelo ambulante. Sim, que isto de ter um blogue é muito lindo mas há que ter muita calma com as pessoas que leem. Ninguém assume que cá anda mas depois…Enfim. Há dias em que a minha caixa de e-mail chega a ter enjoos com tanta turbulência e nem faço ideia de quem são as pessoas que escrevem. Agora imaginem se soubesse… (LOL)

A não ser que estejamos em 1950, eu adoraria poder escrever tudo o que me apetece sem pensar nas consequências. Não fosse eu querer paz e sossego e iam ver. Era a loucura todos os dias!

Eu imagino o que o Cláudio Ramos, o Por Falar Noutra Coisa ou a Pipoca Mais Doce aturam todos os dias. Deve ser horrível ler alguns comentários, algumas ameaças e muitas ofensas.

Hoje em dia é muito fácil mandar alguém para um sítio onde o sol não brilha, ameaçar alguém de porrada ou chamar-lhe de tudo menos de pessoa honesta quando se está atrás de um computador. E eu até entendo, afinal também acho mais fácil dizer tudo como os malucos a escrever do que a falar. Mas ainda assim defendo que se deve ter respeito pelo outro em qualquer forma de comunicação.

Desabafos à parte e voltando à questão inicial. Eu escrevo porque escrever é como uma terapia.

Eu sou uma pessoa muito ansiosa, toda a vida tive ataques de pânico e escrever ajuda-me. Ajuda-me a deitar para fora tudo o que sinto sem filtros.

Quando escrevo não dou pelo passar das horas. Escrevo e desligo-me de tudo à minha volta. Entro na minha bolha e sou só eu e as palavras. Simplesmente escrevo e nem penso muito nisso. É uma coisa natural para mim.

Escrever faz-me sentir a “Wonder Woman” dos teclados ou… do papel e caneta. Sim, porque eu prefiro mil vezes escrever em papel do que no computador!!!

Na escola e depois na faculdade, estudava sempre a fingir que era professora e estava a dar aulas. E o que há sempre numa sala de aulas? Um quadro.

Digamos que o meu quadro era a porta da cozinha e eu dava aulas para a mesa, para o fogão e para tudo o que é eletrodoméstico enquanto escrevia as coisas na porta a giz. E tinha até um apagador para dar ainda mais credibilidade à coisa.

Quando não usava o “quadro”, usava o meu caderno. O papel era o caderno de um aluno qualquer a quem eu estava a ensinar a matéria. Não sei se isto faz de mim uma grande maluca…mas funcionou e eu nunca chumbei um ano na faculdade. Entretanto a porta da cozinha foi prontamente pintada assim que me licenciei!

E revistas? Amoooo revistas. “Papo-as” todas!!! Adoro ler o que lá está escrito e apreciar a forma como está tudo a ser narrado. Adoro!!!

Confesso-vos que é o meu maior vicio e acreditem que se não comprasse tantas poupava tanto dinheiro que já era rica por esta altura.

Resumo da coisa, escrevo porque me faz bem, porque é uma espécie de terapia. Escrevo porque sinto que respiro enquanto o faço. Sou eu mesma quando escrevo. Apenas eu. Sem piadas (que é o meu grande escudo), sem filtros, sem pensar muito no que os outros pensam sobre mim ou sobre o tema.

Escrevo por vício, por gosto, por entrega, por sentir que as minhas palavras um dia poderão mudar alguma coisa. Sonhando alto, quem sabe se um dia alguém lê o que escrevo e se sente inspirada? Ou se ajudo alguém?

Escrevo pela mesma razão que falo, que canto, que leio, que comunico. Escrevo porque quero deixar uma marca, a minha marca.

Escrevo sobre tudo e sobre nada. Escrevo sobre lixivia ou sobre perfumes com a mesma entrega e com a mesma motivação.

E um dia escreverei sem restrições. Um dia, muito em breve, vou escrever tudo como os malucos, sem pensar que “A” ou “Z” se vão sentir ofendidos ou que “Y” ou “H” vão levar tudo como dicas ou indiretas. A minha vida gira à minha volta e de mais ninguém.

Ainda não o faço mas vou ter de o fazer porque escrever sobre censura não é coisa para mim. Mesmo que esta censura parta de mim. Abaixo os muros que não nos deixam voar mais alto e sair do nosso lugar de conforto. Abaixo tudo o que nos corta as asas que nos fazem voar.

Em breve vou escrever TUDO e aí cada letra, cada palavra, cada acento ou cada pontuação vão ter a liberdade que merecem.

E nesse dia coloquem-me novamente esta questão e eu irei responder-vos: escrevo porque ao escrever sou livre.

 

 

29 Maio, 2017

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