Lipa Rima Com Pipa

|by Ana Vougo

TU SÓLO EN MIS FOTOS ESTÁS

Chegou a casa e ele já não estava.

Acendeu a luz do quarto, sentou-se na cama e respirou.

Todo o seu mundo estava diferente e foi nesse momento que ela o percebeu.

Quando ontem discutiram por culpa dos ciúmes, ele disse não aguentar mais, disse estar farto, que merecia mais e ameaçou sair. Ela não acreditou. Afinal, o mundo deles cruzou-se há anos e já tinham sobrevivido a discussões piores.

Mas nela havia uma enorme suspeita. O comportamento dele mudou. Ela sabia de cor o homem que amava. Conhecia-o de fora para dentro e de dentro para fora. Até do avesso ela o conhecia.

A suspeita começou há meses mas ontem, naquela que agora ela sabe ter sido a última discussão, confirmou-se. Ele já não era o mesmo. Ela já não era o seu tudo. Ele não conseguia mais continuar.

Deixou-se cair de costas na cama. Respirou fundo. Enquanto respirava, ela podia sentir o seu cheiro em todo o lado. Agarrou no telemóvel e marcou o número dele. Ele não atendeu.

Ela deixou várias mensagens de voz e enviou umas quantas escritas a suplicar que ele lhe ligue, que lhe dê noticias, que ele a ouça.

Não entende onde errou. Não viu os sinais. Não deu por nada. Estava crente que a vida a dois era perfeita e que eles tinham tudo. Ela sabe que eles eram felizes. Ela sabe.

Olhou para uma fotografia dele na mesa de cabeceira.

Grita com toda a sua força e parte a moldura contra a parede.

Acabou e ela sabe. Ela não se apercebeu que a relação iria terminar. Ela era feliz. Tudo era perfeito. Bolas, isso via-se nas fotos!

Ele sempre lhe dizia: “Quero mais, preciso de mais, mereço mais”. E ela fingia ouvir. Então não tinham tudo?!

Ela não reparou nos sinais. Ela não via qualquer sinal. Estava tudo bem. Será que ele nunca parou para ver as fotos?!

A porta abre-se. Ela corre para a entrada. Era ele.

Ele pensava que ela não estaria em casa, afinal ela nunca chegava antes das 23h. Eram 18h e ela estava lá. Alguma coisa lhe disse para hoje não sair de casa. Que hoje ela tinha que estar lá.

Olharam-se.

Depois de um enorme silêncio ela viu-o pela primeira vez em muito tempo. Não o olhou apenas. Ela viu-o.

Ele diz olá e que veio buscar as suas coisas.

Ela desata em pranto enquanto suplica que ele lhe explique porque raio não está feliz, porque a quer deixar. Porque não olha ele para as fotografias?!

Ele responde apenas com um “já não dá”. Ela chora. Ela grita. Ela agarra-se a ele e implora-lhe que não vá.

Tem o coração a mil. Sente o corpo a tremer e a voz a falhar. Sente medo. Um medo que lhe está a cortar a respiração.

Ele olha para ela e diz que tentou. Tentou por muitas vezes lutar contra a falta de tempo, de intimidade, de conversa, de toques, de beijos. Lutou muitas vezes contra as saudades dela. Deles. Do que um dia os uniu. De tudo o que viveram e que foi sendo esquecido.

Tudo era mais urgente que eles. Ele deixou de ser a prioridade dela e ele queria ser o não vivo sem ti dela.

Ele pega numa fotografia e vê um casal bonito e sorridente mas sabe que depois do flash não havia mais nada. Era só mesmo uma fotografia de um casal feliz que ele já não conhece e nem se recorda.

Ela olha para a mesma foto e diz que não é isso que vê. Que ele está doido. Que o ama e que dá-lhe tudo o que tem.

Ele diz que só queria tudo o que ela era e já não é.

Chamem-lhe rotina, chamem-lhe distância, chamem-lhe comodismo. Nenhum dos dois se apercebeu a tempo que iria terminar assim.

Ela estava sempre muito ocupada. Ele estava sempre à espera.

Algures no meio eles perderam-se um do outro e não haviam migalhas para marcar o caminho de regresso ao que um dia foram.

Acabou.

Os dois agora são um. Já não há multiplicações,  já não há metades. Apenas duas pessoas com uma história cheia de passado mas sem qualquer futuro.

Ela senta-se no sofá. Ele arruma as suas coisas.

Ao sair ela agarra na primeira fotografia que tiraram juntos e diz-lhe que aqueles dois amam-se e querem ser felizes.

Ele agarra na mesma foto e diz que aqueles dois que ela vê tinham tudo para dar certo. Que aqueles dois tinham tudo para serem a mais bonita história de amor. Mas não o serão.

Vão ter de reescrever as suas histórias. Separadamente. Não mais com a mesma caneta nem no mesmo papel e nunca como mais como naquela fotografia.

“Sê feliz”, diz-lhe ele. Fecha a porta sem olhar para trás.

Ela respira fundo. Procura forças. Procura fotografias deles. Vê uma a seguir à outra sem parar.

Será que ele não consegue ver? Será que ele não parou para ver as fotografias?

Porque ele não para e vê as fotografias? Talvez se ele tomar atenção se aperceba que aquela foto… Nesse momento para de pensar.

Deixa-se cair sobre as fotos. As fotos onde ele está. O único sitio onde ele agora está.

E isso é tudo o que lhe resta.

 

 

15 Junho, 2017

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